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dezembro 30, 2009

"O homem recusa o mundo tal como ele é, sem aceitar o eximir-se a esse mesmo mundo. Efectivamente os homens gostam do mundo e, na sua imensa maioria, não querem abandoná-lo. Longe de quererem esquecê-lo, sofrem, sempre, pelo contrário, por não poderem possuí-lo suficientemente, estranhos cidadãos do mundo que são, exilados na sua própria pátria. Excepto nos momentos fulgurantes da plenitude, toda a realidade é para eles imperfeita. Os seus actos escapam-lhes noutros actos; voltam a julgá-los assumindo feições inesperadas; fogem, como a água de Tântalo, para um estuário ainda desconhecido. Conhecer o estuário, dominar o curso do rio, possuir enfim a vida como destino, eis a sua verdadeira nostalgia, no ponto mais fechado da sua pátria. Mas essa visão que, ao menos no conhecimento, finalmente os reconciliaria consigo próprios, não pode surgir; se tal acontecer, será nesse momento fugitivo que é a morte; tudo nela termina. Para se ser uma vez no mundo, é preciso deixar de ser para sempre.
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Neste ponto nasce essa desgraçada inveja que tantos homens sentem da vida dos outros. Apercebendo-se exteriormente dessas existências, emprestam-lhes uma coerência e uma unidade que elas não podem ter, na verdade, mas que ao observador parecem evidentes. Este não vê mais que a linha mais elevada dessas vidas, sem adquirir consciência do pormenor que as vai minando. Então fazemos arte sobre essas existências. Romanceamo-las de maneira elementar. Cada um, nesse sentido, procura fazer da sua vida uma obra de arte. Desejamos que o amor perdure e sabemos que tal não acontece; e ainda que, por milagre, ele pudesse durar uma vida inteira, seria ainda assim um amor imperfeito. Talvez que, nesta insaciável necessidade de subsistir, nós compreendêssemos melhor o sofrimento terrestre, se o soubéssemos eterno. Parece que, por vezes, as grandes almas se sentem menos apavoradas pelo sofrimento do que pelo facto de este não durar. À falta de uma felicidade incansável, um longo sofrimento ao menos constituiria um destino. Mas não; as nossas piores torturas terão um dia de acabar. Certa manhã, após tantos desesperos, uma irreprimível vontade de viver virá anunciar-nos que tudo acabou e que o sofrimento não possui mais sentido do que a felicidade."

Albert Camus, in "O Homem Revoltado"

setembro 11, 2009

Simples

"Ser simples não é andar mal vestido e desalinhado; não é usar de falsa modéstia; não é ser retraído e tímido. Ser simples, é não se envaidecer pelo que tem ou conhece; é saber humanizar-se com os que honradamente trabalham e produzem; é demonstrar identificação com a colectividade e confratenizar-se com os seus problemas. Assim também ser humilde não é sujeitar-se a humilhações; não é permitir que o ofendam ou deprimam; não é genuflectir-se diante de quem quer que seja. Ser humilde é não querer aparecer através de seus efeitos; é conservar-se anónimo na distribuição de benefícios; é saber sujeitar-se, sem mágoas, aos actos de renúncia."
in Prática do Racionalismo Cristão

agosto 05, 2009

Luz & Trevas

"Hoje, não podeis ver nem ouvir, e é melhor assim. Mas, um dia, o véu que cobre vossos olhos será retirado pelas mãos que o teceram. E a argila que obstrói vossos ouvidos será rompida pelos dedos que a amassaram. Então vereis...então ouvireis, E não deplorareis ter conhecido a cegueira e a surdez. Pois, naquele dia, compreenderás a finalidade oculta de todas a coisas, e bendireis as trevas, como bendizeis a luz" Kalil Gibran

julho 22, 2009

Ler Lolita Em Teerão. Estou a ler este livro de Azar Nafisi, iraniana de nascimento. Foi professora na Universidade de Teerão e, depois de se ter demitido do seu lugar, devido a condicionalismos políticos impostos pela revolução islâmica - ela recusava-se a usar o véu islâmico - convida sete das suas melhores alunas, as mais empenhadas, para uma reunião semanal na sua casa, onde falariam de Literatura (tem muitas referências à literatura ocidental, sobretudo Nabokov). Como os livros que liam estavam oficialmente proibidos eram obrigadas a encontrar-se em segredo, muitas vezes partilhando fotocópias dos livros ilegais. Durante dois anos encontram-se para falar e embora algumas delas se sentissem intimidadas a princípio, depressa se entusiasmaram com as reuniões e usaram-nas para debaterem as realidades sociais, culturais e políticas da vida do país submetido às regras do fundamentalismo islâmico. ................................................................................................................................................
"Imagine que está a descer uma vereda entre folhagem. É no princípio da Primavera, antes do pôr do Sol, por volta das seis da tarde. O Sol está a baixar e está a caminhar sózinho, sentindo na pele a carícia da brisa dourada do fim da tarde. E, de repente, sente uma grande gota cair no braço direito. Estará a chover? Olha para cima. O céu ainda está enganadoramente limpo, o Sol continua a brilhar: apenas umas nuvens aqui e ali. Segundos mais tarde, outra gota. E de repente, com o Sol ainda alto no céu, cai um chuveiro de repente, deixando-o encharcado. É assim que as recordações me invadem, abruptamente e inesperadamente: encharcada até aos ossos, fico de repente outra vez sózinha no meu caminho soalheiro, com a memória da chuva.
Já disse que estávamos naquela sala para nos protegermos da realidade exterior. Também disse que essa realidade se impunha a nós, como uma criança petulante que não dava aos frustrados pais um momento para si próprios. Ela criava e moldava os nossos momentos íntimos, atirando-nos para cumplicidades inesperadas. As nossas relações tornavam-se pessoais de muitas maneiras diferentes. Não só as actividades mais comezinhas ganhavam uma nova luminosidade à luz do nosso segredo, como também a vida quotidiana por vezes adquiria uma qualidade de faz-de-conta ou de ficção. Tinhamos de revelar umas ás outras aspectos de nós próprias que nem sequer sabiamos que existiam. Sentia-me constantemente como se estivesse a despir-me à frente de perfeitos estranhos."

maio 26, 2009

O Convite


O que realmente interessa? Já pensaram nisso?



Li isto há uns anos mas de vez em quando, em certos momentos vem-me há cabeça. A autora (Sylvia Browne in O Outro Lado da Vida, Um guia psíquico) diz: "Recentemente, li uma coisa que me parece uma maneira belíssima de terminar um capítulo sobre relações. Aplica-se a casais, amigos, familiares, a quem quer que deixemos entrar nas nossas vidas e, acima de tudo, à relação fundamental entre nós próprios e a luz divina de Deus dentro de nós. Chama-se O Convite:
"Nao me interessa o que fazes na vida.
Quero saber o que anseias e se tens coragem de sonhar com a realização desse anseio.
Nao me interessa a idade que tens.
Quero saber se tens coragem de fazer figuras tolas em busca do amor, dos teus sonhos, da aventura de estar vivo.
Nao me interessa quais os planetas que regem a tua lua.
Quero saber se tocaste no âmago da tua própria dor, se tens estado aberto às traições da vida ou se te fechaste com medo de sofrer novamente. Quero saber se consegues sentar-te na presença da dor, tua ou minha, sem tentares escondê-la, esmorecê-la ou remenda-la.
Quero saber se consegues estar na presenca da alegria, tua ou minha, se consegues dançar loucamente e deixar o êxtase inundar-te, da ponta dos pés à cabeca, sem dizer "tem cuidado, sê realista, lembra-te das limitações do ser humano".
Nao me interessa se a história que me contas é verdadeira. Quero saber se és capaz de desiludir uma pessoa para seres verdadeiro para contigo próprio; se consegues suportar a acusacão de traição e nao traires a tua alma, se consegues despojar-te de fé e ser de confiança.
Quero saber se consegues ver a beleza, mesmo quando nao é bonita, todos os dias, e se consegues alimentar a tua vida com a sua presença.
Quero saber se consegues viver com o fracasso, teu e meu, e ainda assim abeirar-te do lago e gritar à Lua Cheia de prata: "Sim!"
Nao me interessa saber onde vives ou quanto dinheiro tens. Quero saber se consegues levantar-te, depois de uma noite de dor e desespero, cansado e dorido até ao âmago, e fazer o que for preciso para alimentar os teus filhos.
Nao me interessa quem conheces ou como aqui chegaste. Quero saber se enfrentaras as chamas comigo, sem dares um passo atrás.
Nao me interessa onde, o que ou com quem estudaste. Quero saber o que te sustenta, por dentro, quando tudo o resto desmorona. Quero saber se consegues estar a sós contigo mesmo e se verdadeiramente aprecias a tua companhia nos momentos vazios."

Sonhador da Montanha Oriah, Ancião Índio

fevereiro 04, 2009

Alguns longos dias fora de casa e cheia de saudades dos meus livros. Apanhei o primeiro que as minhas mãos alcançaram e voilá....as mais belas palavras sobre a Vida.
"Mestre, a vida tem-se revelado madrasta para as nossas esperanças e desejos. Nos nossos corações reina a perturbação, e não conseguimos entender. Rogamo-vos, reconfortai-nos, e revelai-nos o porquê das nossas penas."
Com o coração emocionado pela compaixão, retorquiu:
"A Vida é mais antiga do que qualquer ser vivo; antes mesmo de a beleza se elevar nos ares, já o belo existia na terra; e antes mesmo de a verdade ser pronunciada, já se revelara como tal.
A Vida canta nos nossos momentos de silêncio, e sonha enquanto passamos pelo sono. Até mesmo quando fomos fustigados e estamos abatidos, a Vida permanece elevada e entronizada. E quando derramamos lágrimas, a Vida sorri para o dia, e é livre, mesmo quando as nossas correntes arrastamos.
Frequentemente, vociferamos contra a Vida, mas isso apenas quando somos, nós próprios, amargos e sombrios. Julgamo-la vazia e falha de sentido, mas isso quando a nossa alma vagueia por desérticos lugares, e o coração se encontra inebriado por uma excessiva preocupação com o nosso próprio ego.
A Vida é profunda, elevada e distante; e mesmo que o vosso olhar alcance longe, e vos seja, mesmo assim, apenas possivel distinguir os seus pés, ela encontrar-se-á perto de vós; e não obstante apenas o bafo da vossa respiração atingir o seu coração, a sombra da vossa sombra projectar-se-á na sua face, e o eco da vossa mais sumida lamentação transmutar-se-á em contraditórios sentimentos de Primavera e Outono em seu peito.
E a Vida é velada e oculta, tal como o vosso mais recôndido eu é oculto e velado. Contudo, quando a Vida se exprime, todos os ventos são palavras; e quando volta a pronunciar-se, os sorrisos nos vossos lábios e as lágrimas nos vossos olhos também são como palavras. Quando ela entoa uma melodia, os surdos escutam e são acolitados; e quando os passos dela se aproximam, os cegos vêm-na, surpresos, seguindo-a entre maravilhados e admirados."
E, após ter acabado de falar, um vasto silêncio envolveu as pessoas, agora reconfortadas na sua solidão e na sua dor, e nesse silêncio uma imperceptível canção.
Kalil Gibran in O Jardim do Profeta

novembro 11, 2008

Como Vejo O Mundo

De Albert Einstein, que volta os olhos para os problemas fundamentais do ser humano (o social, o político, o económico, o cultural ) e torna clara a sua posição diante deles.
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"A minha condição humana me fascina. Conheço o limite da minha existência e ignoro por que estou nesta terra, mas às vezes o pressinto. Pela experiência quotidiana, concreta e intuitiva, descubro-me vivo para alguns homens, porque o sorriso e a felicidade deles me condicionam inteiramente, mas ainda para outros que, por acaso, descobri terem emoções semelhantes às minhas. E cada dia, milhares de vezes, sinto a minha vida — corpo e alma — integralmente tributária do trabalho dos vivos e dos mortos. Gostaria de dar tanto quanto recebo e não páro de receber. Mas depois experimento o sentimento satisfeito da minha solidão e quase demonstro má consciência ao exigir ainda alguma coisa de outrem. Vejo os homens se diferenciarem pelas classes sociais e sei que nada as justifica a não ser pela violência. Sonho ser acessível e desejável para todos uma vida simples e natural, de corpo e de espírito.Recuso-me a crer na liberdade e neste conceito filosófico. Eu não sou livre, e sim às vezes constrangido por pressões estranhas a mim, outras vezes por convicções íntimas. Ainda jovem,fiquei impressionado pela máxima de Schopenhauer: “O homem pode, é certo, fazer o que quer, mas não pode querer o que quer”; e hoje, diante do espectáculo aterrador das injustiças humanas, esta moral me tranquiliza e me educa. Aprendo a tolerar aquilo que me faz sofrer. Suporto então melhor o meu sentimento de responsabilidade. Ele já não me esmaga e deixo de me levar, a mim ou aos outros, a sério demais. Vejo então o mundo com bom humor. Não posso me preocupar com o sentido ou a finalidade da minha existência, nem da dos outros, porque, do ponto de vista estritamente objetivo, é absurdo. E no entanto, como homem, alguns ideais dirigem as minhas acções e orientam os meus juízos. Porque jamais considerei o prazer e a felicidade como um fim em si e deixo este tipo de satisfação aos indivíduos reduzidos a instintos de grupo(...)"